Desalentos

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Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna

A gente sente muito mais do que gostaria, meu amor.

Minha psicóloga diz que isso não nos torna fracos, bem pelo contrário. Isso nos permite entrar em contato direto com nossa essência e sentir tudo em sua magnitude. E isso exige muita coragem.

No entanto todos os dias me sinto uma covarde tentando fugir de qualquer resquício indício ou sinal de sentimento que tente me consumir. porque sei que não consigo não consigo não consigo

desalentos
veleiro
veleiro

dar ao passado uma coroa de flores, 1 maço de cigarros cubanos e um adeus. sem floreio, manda-lo ao fim do mundo, enquanto eu, caminho até o recomeço dele.

velar o corpo do passado num rito de luto e deixa-lo.

ao passado cujo aprendi a doer me despeço para continuar.

deixa-lo desaparecer nas águas turvas que um dia estive
estive,
não estou.

veleiro
veleiro

de novo as palavras no espaço minúsculo do não dito. de novo. a barriga ronca, mas não é de fome. o espaço apertou, ardeu, e então vazou, como de costume.

tenho notado o meu nariz mais parecido com o do meu pai, que é igual ao do meu avô e que juntos comigo formam a santíssima trindade dos enclausurados dentro de si mesmo, mas eu sou mulher, eu preciso arrancar as estranhas pra fora.

eu gosto muito de vinho e cerveja mas agora essa merda tem me caído mal. é, parece que a única saída é mesmo para dentro da vida. ainda bem. 

estômago frágil,
coração baqueado,
tá nas mãos de Deus.

adotei um cachorro filhote e a responsabilidade me acorda de madrugada. isso não tem nada a ver com amor ou talvez tenha. só sei que foi nessa coisa de abraçar o plural que eu confessei um pecado, cometi outro erro ridículo e depois mergulhei fundo em um mar que sempre me coube – mesmo na tragédia.

é que eu queria ser mais segura, me masturbar mais, queria gostar de cigarros, eu quero tanta coisa, mas aqui estou eu,

viva,

e pretendo continuar. 

a mulher de vermelho me trouxe um recado, eu te disse, e assim como eu você também se perdeu. o tempo não traz só as rugas, traz também o sentido.

qual é a sua maior dúvida?

ouvir bethania conserta tudo aqui dentro. ouvir bethania me atropela repetidas vezes até que o meu corpo, os pedaços e o sangue se espalhem como mercúrio.

a minha maior desgraça foi queimar até virar cinzas e o triunfo foi destruir você. eu não sou pouca merda, nunca fui, ando tão rápido como falo e penso, mas amar pra mim, não tem nada a ver com rapidez, porque eu não sou carro e você também não.  

permearei os silêncios e as ausências e preencherei tudo com a ausência que de mim explode e faz luz.

buscarei no sol e no ser o oceano que de nós emerge se faz maré avassaladora.

e no âmago do mundo e nas tormentas de mim busco e apalpo qualquer coisa que se assemelhe ao meu ser.

e não ter medo de ser e de sentir e de escrever e de ser eu.

desalentos

sou refém do (des)amor e é ele quem me persegue todas as noites enquanto fujo buscando qualquer coisa que se assemelhe a mim mesma. sou refém das tuas raizes, que se emaranham tão profundamente na minha terra e entram em cada canto cada espaço meu. tu preenche minhas lacunas e eu só sei te sentir. tuas raizes não só me seguram junto a ti como se consolidam feito ferro e viram âncora que me prendem rente a ti. imóvel. cativa. impotente. refém.

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serdapoesia
acolunadomeio

SEMENTEIRA


O poeta

faz agricultura às avessas:

numa única semente

planta a terra inteira.

Com lâmina de enxada

a palavra fere o tempo:

decepa o cordão umbilical

do que pode ser um chão nascente.

No final da lavoura

o poeta não tem conta para fechar:

ele só possui

o que não se pode colher.

Afinal,

não era a palavra que lhe faltava.

Era a vida que ele, nele, desconhecia.

(Mia Couto, in "Tradutor de Chuvas".)

minha depressão tem me pego desprevenida nos últimos dias. sinto como se estivesse pisando em um lago congelado, e qualquer passo fora da órbita natural possa causar um dano irreversível e uma dor avassaladora. qualquer ínfimo detalhe é capaz de me trucidar. qualquer desamor capaz de romper minha alma. a vulnerabilidade percorre minhas veias e rompe minha pele, deixando cicatrizes abertas. e todos os dias sinto jorrar álcool em cima delas, ardendo. me fazendo gritar. gritos que são silenciados porque ninguém é capaz de ouvir. e eu grito por ajuda, mas ninguém me ouve. e eu me sinto tão sozinha. e dói tanto. e eu me sinto tão fraca porque não existe um motivo sequer pra eu ter depressão. e sinto a ingratidão percorrer minhas veias como a vulnerabilidade. e a fraqueza. o desamor me oprime.

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